Fight! Cosmic Soldier (1985)

Por 

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Cosmic Soldier – MSX, PC-8801, FM-77, Sharp X1 (1985)

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Capa

RPGs japoneses são conhecidos por serem ambientados em mundos semi-fantásticos, com personagens estilo anime e por ter enredos complicados e personagens complexos. Obviamente algumas séries desafiam estas definições, como a série Cosmic Soldier, da Kogado, uma das mais antigas séries de RPG japonesas. Os três títulos da série consistem em dois RPGs para MSX com um estilo similar, e um terceiro jogo bastante diferente para Windows. Diferente dos JRPGs mais tradicionais com visão de terceira pessoa, os jogos para MSX são em primeira pessoa, parecido com o estilo do Megami Tensei (sendo que o Cosmic Soldier é anterior à este) ou do Wizardy.

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MSX

Apesar de ser um tanto primitivo, eles contam com um bom nível de complexidade para a sua época. O que torna estes jogos tão interessantes é a idade deles, já que eles estão entre os primeiros RPGs japoneses já feitos, apesar de mostrar alguma influência dos primeiros jogos americanos, eles já mostram algumas direções que o gênero tomaria no futuro. O segundo jogo também foi um dos primeiros JRPGs à serem lançados no ocidente, e é um exemplo de uma localização bem feita, superior à original japonesa. Estes dois primeiros jogos merecem atenção pelo seu estilo único de jogo, apesar do primeiro jogo contar com muito grinding, típico dos RPGs antigos – já o segundo pode ser considerado um bom RPG. O terceiro jogo é um JRPG mais genérico, sendo bastante difícil de se achar para realmente merecer alguma atenção [N. do T.: este jogo foi lançado em 2001 e quase não há informação sobre ele online – ele não será coberto aqui neste site].

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MSX

O primeiro jogo da série é onde tudo começa, e já introduz o estilo de jogo que será refinado em sua continuação. A história se passa no ano 3530, onde as imediações da estrela KGD (referência óbvia à Kogado, o nome da desenvolvedora) caíram sob o domínio do maligno Império Quilla (escrito como “Quila” no segundo jogo). Seu personagem é um soldado da Aliança, os “mocinhos” genéricos, que enviam você para sua missão em companhia de uma parceira andróide para combater esta ameaça.

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MSX

O jogo consiste em uma grande busca por itens, onde você deve encontrar 3 data cards e 4 “filtros”, que permitem o acesso à um arquivo secreto no banco de dados do inimigo. O arquivo contém uma fórmula valiosa para se destruir o μ-80, a substância que bloqueia os poderes psíquicos do seu personagem, o impedindo de por um fim aos planos maléficos do Império. Os data cards e filtros estão espalhados por diferentes astros no sistema de Quila, e podem ser alcançados imediatamente por viagem espacial; toda a informação que você precisa para localizar estes itens pode ser obtida ao se falar com inimigos. Uma vez que você tenha os itens com você, você precisa localizar o banco de dados e obter o arquivo. Não há um chefe final para se derrotar, mas você precisa inserir a senha de 4 caracteres para acessar o arquivo. Os quatro números podem ser descobertos usando-se os data cards e filtros uns com os outros, mas a ordem correta é desconhecida e deve ser obtida através de um jogo de adivinhação na última sala do jogo – se você errar uma posição, você recebe um alerta. Acerte o código e você termina o jogo: todos os personagens, incluindo os inimigos, pegam pom-pons de líderes de torcida para festejar a sua vitória.

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PC-88

A interface do jogo é absurdamente feia, desengonçada e mal planejada. Sua parceira andróide ocupa espaço demais na tela, enquanto a tela de visão em primeira pessoa ocupa um espaço pequenininho no centro da tela. Acima dela esta a caixa principal, onde você vê os membros da sua equipe, os itens que está carregando, e os inimigos atualmente presentes. De início, o jogo permite que você continue o jogo com uma equipe já existente, ou você pode criar uma do zero. Criar uma equipe nova consiste apenas em dar um nome ao personagem principal, já que recrutar os membros da equipe faz parte da experiência de jogo. Um máximo de duas equipes é permitido, e apesar do jogo poder ser salvo à qualquer momento (exceto durante as lutas), fazê-lo vai salvar a sua equipe atual e te levar para a tela de escolha de equipe –  o que significa que se você salvar num mal momento, você vai precisar recomeçar o jogo do zero. O movimento nos labirintos é controlado pelas teclas direcionais (o teclado numérico na versão para PC-88), e tem resposta boa e rápida.

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A presença da sua parceira andróide (chamada Mary) acompanhando você é um dos aspectos principais de Cosmic Soldier. Ela não pode levar dano ou morrer, e sua função principal é carregar os gadgets que te ajudam ao longo de sua aventura. É interessante notar que ela também é um dos primeiros exemplos de garotas usando “bikini armor” à aparecer em um jogo de vídeogame (Um exemplo mais antigo é Panoramatou, o primeiro RPG da Nihon Falcom, lançado em 1983). Os gadgets mencionados são, na verdade, objetos – como um bracelete, um par de brincos e um absorvente íntimo (!?), perdidos em vários labirintos, em diferentes lugares do sistema Quila, com os quais a andróide deve se equipar para adquirir novas habilidades. Informações sobre estes itens pode ser obtida nos poucos laboratórios de pesquisa encontrados em algumas cidades (que são labirintos normais, com alguns lugares extras), que te fornecer gratuitamente descrições bem longas sobre a habilidade de cada um destes objetos. Entre elas estão:

  • Clarividência: a andróide escaneia o labirinto à frente da equipe e avisa o que está à frente.
  • Aconselhamento: a andróide compara o nível atual da equipe com os inimigos que ela está enfrentando. Isso é feito no começo de cada luta, e já que a força do inimigo é geralmente aleatória, esta habilidade pode salvar os seus personagens de uma derrota certa. Por exemplo, se ela disser “Ru.. Run away!!” significa que você provavelmente não irá sobreviver à luta, mesmo que você tenha encontrado este mesmo inimigo antes.
  • Sexaróide: é aqui que a coisa fica suja. Com esta habilidade, você pode fazer sexo com a andróide (agora uma “sexaróide”) quando quiser, e ter uma pequena porção de sua defesa transferida para a sua força de ataque permanentemente (falarei mais sobre os níveis mais à frente). Naturalmente, já que a andróide é um tanto tímida, ela se recusará à tirar a roupa à menos que vocês  entrem em um hotel antes (salas nas cidades representam lugares comuns como bares, restaurantes e hotéis). Isso mostrar uma cena de nudez onde você pode ver a andróide sem a sua armadura-biquíni (por isso a mulher nua na tela de título). Vale notar que um mecanismo similar também foi adotado em Halls of Death (1983), um “dungeon crawler” mais antigo para o Commodore 64 onde você pode equilibrar sua força e poder psíquico transferindo pontos de um para o outro. Este jogo, assim como Cosmic Soldier, também conta com uma tela de primeira pessoa pequenininha.
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Andróide totalmente equipada, momentos antes de usar o BIO-POWER-EXCHANGER (NSFW)

  • Reparo: com esta habilidade você pode consertar suas armaduras sem ter que entrar em uma oficina. Entretanto, você precisa comprar peças de armadura antes (a caixa vermelha de ferramentas que a aparece em alguns dos screenshots).
  • Auto-reparo: a andróide conserta sua armadura automaticamente após cada luta, logo tornando a habilidade anterior redundante.
  • Cura: a andróide cura os membros da sua equipe automaticamente depois de cada luta.
  • Escudo: sua Defesa aumenta permanentemente.
  • Guerra: a andróide vira uma “battlóide”, e seu Ataque aumenta permanentemente.

Fora os cards, filters e estes acessórios da andróide, não há muito mais para se achar nas dungeons. Além disso, eles podem ser bem difíceis de se mapear, já que eles contam com paredes invisíveis, warps, loops, armadilhas, pisos que causam dano e elevadores, e mesmo com o mapa em mãos pode ainda ser difícil ter uma idéia de que caminho escolher. Existem “junk shops” na maioria das cidades, onde você pode comprar uma variedade coisas como relógios, cordas e botas, mas com exceção de um único item importante, estes são completamente inúteis. Uma coisa interessante é que, entre estes itens, você pode comprar uma cópia de Emmy 2, o famoso jogo de conversação com uma garota, lançado pela Kogado um ano antes. Um dos astros (XSUS) também tem um cassino, convenientemente escondido atrás de um bar, onde você pode jogar um simples jogo de roleta para ganhar algum dinheiro.

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PC-88

Como na maioria dos RPGs da época, os encontros com inimigos acontecem aleatoriamente nas dungeons, e a frequência deles é bem alta. Os combates acontecem em turnos, com o inimigo raramente conseguindo atacar antes. Quando uma luta acontece, os personagens que ficam na frente das linhas são os que levam dano; de início, só a armadura leva dano, e então o personagem, quando a armadura é destruída. Os inimigos vem em grupos de até sete membros, sendo todos do mesmo tipo. Mesmo não havendo ações que afetam status e sendo possível apenas ataques físicos, há ainda alguma dose de estratégia durante as lutas. Em particular, em cada turno, você deve instruir seus personagens (todos de uma vez) sobre quanta força eles devem utilizar em seus ataques, desde “com toda a sua força” ou “diga buuuu!”. O motivo disso é que alguns inimigos, quando lhes resta uma pequena quantia de vida, pedem misericórdia e lhe oferecem dinheiro ou informações preciosas. Nestes casos, uma barganha bem-sucedida resulta no aumento dos pontos de ataque (ATT) do jogador; em contraste, destruir os inimigos aumenta sua defesa (GARD). A subida de nível em si só acontece quando o jogar acumular mais pontos de experiência que seu nível atual de ataque/defesa, que na prática significa que só se sobe de nível quando a barra azul clara de 1 pixel de largura na parte superior da tela for mais comprida que as barras verdes enfileiradas. Obviamente, este sistema pode ser abusado tentando-se manter as barras verdes o mais curto possível, o que significa em jogar sozinho e sem nenhuma armadura. Mesmo assim, o jogo ainda requer bastante grinding para conseguir progredir. Há a opção de se fugir das lutas, que caso seja bem-sucedido, sua equipe acaba se movendo para um espaço próximo aleatório na dungeon.

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Talvez a característica mais notável de Cosmic Soldier é a possibilidade de se recrutar aliados entre os seus inimigos, um conceito que mais tarde seria uma das características fundamentais da série Megami Tensei franchise. Nem todos os inimigos podem ser recrutados (em particular soldados do Império e animais selvagens), e escolher membros de raças específicas não faz muita diferença já que o nível de ataque e defesa depende na verdade do equipamento, que pode ser adquirido facilmente nas cidades. Personagens recrutados precisam receber um apelido, e já que personagens mortos não podem ser ressuscitados, novos membros precisam ser recrutados constantemente. Algumas vezes os inimigos te procuram pedindo para comprar parte do seu equipamento, sempre oferecendo mais que o atual preço de mercado. Isso realmente quebra a economia do jogo, já que você pode ficar vendendo equipamento para os inimigos e comprá-los de novo nas lojas. Com isso, dinheiro deixa de ser um problema bem cedo no jogo, e você sempre será capaz de equipar toda a sua equipe com os melhores equipamentos. Entretanto, apesar de haver um inventário de itens, você não pode usá-lo para  carregar equipamento reserva com você. Uma vez que a armadura de algum personagem é destruída, ela já era, à menos que haja uma loja por perto. Além disso, a posição dos personagens é fixa enquanto eles estiverem vivos, mas você tem a opção de trocar armas e armaduras entre eles. Eis um cenário típico:

  1. Você mapeia seu caminho pela dungeon até um encontro com inimigos acontecer;
  2. Você ataca os inimigos “com toda a sua força” até eles serem destruídos (o que geralmente só leva um ou dois turnos);
  3. Você troca a armadura danificada dos personagens da linha de frente com as dos personagens de trás.

Na versão para MSX as lutas são lentas, e os gráficos dos membros da sua equipe são pequenos e feios. Já na versão PC-88, a velocidade das lugtas é bem maior, os gráficos ainda não são bons mas são melhores, e a interface parece melhor executada.

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PC-88

Existem duas versões do jogo na internet. A versão para MSX só existe em uma versão da ROM, que está parcialmente traduzida para o português, com o resto com caracteres sem sentido. A versão para PC-88 é jogável, com gráficos melhores, e quando um inimigo aparece, você vê uma imagem dele no canto inferior direito da tela. O jogo não é tão bom quanto a sua continuação, mas a versão para PC-88 de Cosmic Soldier vale à pena ser jogada se você souber japonês, mas não deixe de pegar os mapas e prepare-se para um dungeon crawler bem old school, com algumas bizarrices.

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PC-88

Após seu lançamento, a revista mensal POPCOM lançou um quadrinho baseado no jogo. Pelo jeito, o quadrinho não fez muito sozinho, e contava com muitos desenhos da andróide Mary nua.

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