Comix Zone (Mês do Mega Drive)

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Comix Zone – Mega Drive, Windows, Game Boy Advance, Wii Virtual Console, PlayStation 2, Xbox 360, PlayStation 3 (1995)

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GBA (EU)

A SEGA estava em seu ápice na metade dos anos 90. Antes da ameça dos 32-bit ameaçasse seus recursos, a SEGA contava com um time bem diverso de estúdios de desenvolvimento, trabalhando em vários projetos simultaneamente. Uma destas divisões era a SEGA Technical Institute (STI), um time americano, que desenvolveu Kid Chameleon Sonic Spinball, e também fez a conversão do Puyo Puyo no Dr. Robotnik’s Mean Bean Machine, todos os três considerados clássicos do sistema no ocidente. Em 1995, o Mega Drive tinha ido longe, mas já estava de saída, com a nova geração de consoles baseados em CD chegando ao mercado, e com o relativo fracasso do SEGA CD, a SEGA tentou segurar a bola com o SEGA Saturn. Entre o SEGA CD e o Saturn houve uma período estranho no suporte do Mega Drive, com uma enxurrada de jogos ridiculamente avançados, que levavam o sistema ao seu limite, e um deles era o Comix Zone, uma das criações da STI e um dos jogos mais queridos dos anos finais do console.

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A premissa do jogo envolve a homônima “Comix Zone” apresentada com uma história em quadrinhos mostrando hordas de alienígenas e mutantes em suas tentativas de destruir ainda mais a Terra pós-apocalíptica, enquanto o New World Empire tenta defendê-la desta invasão. Esta história é baseada nos vívidos pesados do escrito e artista Sketch Turner, um esperançoso quadrinista à beira do sucesso (e roqueiro nas horas vagas. Não acontece muita coisa em sua vida, morando em Nova Iorque com Roadkill, seu rato de estimação e sua única companhia. Entretanto, as coisas tomam um rumo horrivelmente bizarro quando por acaso um raio acerta a história em quadrinhos na qual estava trabalhando e traz à vida um dos seus personagens. Infelizmente, este personagem é o Mortus, o vilão principal, e ele salta de dentro das páginas e leva Sketch para o tumultuado mundo de Comix Zone.

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No mundo real, Mortus é feito apenas de tinta e papel, então ele pretende matar Sketch na Comix Zone para roubar a sua vida e se tornar uma terrível entidade real. Na Comix Zone, Sketch consegue a ajuda da General Alissa Cyan, uma representante dos militares que acredita que ele é o “Escolhido”, que está destinado à salvar o mundo, o que Sketch inicialmente não concorda. Apesar de Sketch achar tudo isso um exagero, mas desde o momento que ele se tornou o herói principal da história ele ganhou uma força descomunal e habilidades de luta que tornam capaz de dar uma surra em seus inimigos. Considerando que agora é o Mortus que está desenhando a história e está ativamente tentando matar Sketch, conseguirá o nosso herói sobreviver e tomar o controle da sua própria criação? Será justificada a fé de Alissa no potencial de Sketch de salvar tanto o mundo ficcional quanto o mundo real? Será que Roadkill conseguirá algo para comer, preferencialmente bastante queijo?

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Comix Zone é basicamente um tributo às histórias em quadrinho como um todo, mas sem sem muito influenciado por uma história em particular. A premissa dos mutantes infestando os esgotos de Nova Iorque para ser algo vindo das Tartarugas Ninja, mas mesmo assim é um mundo bastante criativo este que Sketch criou para ser sua indesejada armadilha. É difícil de se classificar este jogo em um gênero, mas boa parte dele é de beat-em-up de scroll lateral, com um pouco de ação em plataforma e puzzle misturados. A maior diferença dele de outros jogos como Streets of Rage ou Final Fight é que a ação só se passa em um único plano. Sketch deve sobreviver às páginas de sua própria história em quadrinhos derrotando quaisquer inimigos que estão à sua frente e descobrindo como ir para o próximo quadrinho. Quando Sketch pode prosseguir, uma seta amarela aponta para fora do quadrinho atual, permitindo que ele passe pela borda do quadrinho até a próxima cena. Sketch e seus inimigos rasga as páginas, mostrando o papel abaixo, e a mão de Mortus aparece constantemente para desenhar novos obstáculos para o nosso herói. Quando você morre, o corpo de Sketch se torna um esboço à lápis e é riscado por Mortus com um marcador.

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Existem vários detalhes gráficos que ficam relembrando o jogador constantemente o porquê deste jogo se chamar Comix Zone. Todos os toques já mencionados fazem você se sentir como se estivesse jogando uma história em quadrinho ao mesmo tempo que a lê, e Sketch constantemente fala um monte de besteiras e chavões enquanto provoca os bandidos ou quando fala consigo mesmo. O nível de detalhe nos planos de fundo é impressionante e às vezes assustador, indo desde a Estátua da Liberdade desmoronada no segundo quadrinho da primeira fase, até o verde e vermelho assustador dos esgotos infestados por mutantes. As fases mais para frente mostram montanhas cobertas de neve, templos asiáticos, cavernas sombrias e destroços de navios, proporcionando uma grande gama de cenários, o que impede o jogo de se tornar repetitivo. Cada cor da paleta do Mega Drive é usada para replicar o visual brilhante dos quadrinhos americanos, e conseguem com sucesso criar um dos jogos mais bonitos para o console.

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Acompanhando estes visuais está uma das mais originais e queridas trilhas sonoras entre os jogos tardios do Mega. A música foi composta por Howard Drossin, que começou estrelou em Sonic Spinball e contribuiu com o design sonoro de Sonic 3/Sonic & Knuckles, antes de mudar para o ramo da música para cinema, apesar de ocasionalmente ainda compor para jogos. Comix Zone tem algumas das músicas mais ecléticas já criadas para o chip de som do Mega Drive, e considerando que o driver de som americano GEMS geralmente não entrega áudio de alta qualidade, é impressionante ouvir o que Drossin conseguiu fazer com as ferramentas que tinha à sua disposição. Algumas faixas tem uma vibe estilo surf rock (especialmente as do primeiro episódio), outras tem um pouco de heavy metal, e outras ainda parecem influenciadas pelo rock grunge dos anos 90. O instrumento que prevalece é um tipo de guitarra elétrica, que soa um pouco abrasiva no começo, mas realmente se encaixa bem na atmosfera geral do jogo. Considerando que o próprio Sketch se declara um roqueiro, ela soa quase como algo que ele mesmo teria composto. A música por ser um gosto à ser adquirido, mas se destaca entre os os trabalhos mais impressionantes de música no Mega Drive. Existem ao menos três faixas em cada fase, mudando quando Sketch passa para a próxima área, e geralmente são apropriadas para o ambiente atual. É este tipo de dinamismo que amplifica a proeza técnica do jogo.

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Mas debaixo desta ótima apresentação existe uma boa jogabilidade, mas que tem uns defeitos aqui e ali. Sketch deve quebrar pelo menos um inimigo na porrada ou resolver um quebra-cabeça antes de prosseguir para o próximo quadrinho, e quando o caso é o primeiro, ele tem vários golpes à sua disposição. Apesar de haver apenas um botão de ataque, quando usado em conjunto com o direcional ele permite que ele dê socos, chutes altos e baixos, uppercuts e outros golpes, entre eles ataques aéreos. Por padrão, Sketch se defende automaticamente se ele não estiver atacando, apesar disso poder ser configurado para um botão separado se você estiver usando o controle de seis botões. Além disso, ele pode rasgar parte da página e usá-la como um avião de papel, em troca de um pouco de energia. Seu inventário permite que ele carregue até três itens, como granadas, chá gelado para recuperar energia, e o mais importante, Roadkill, seu rato de estimação. A cauda do roedor pode ser usada para tontear os inimigos e dar ao Sketch uma vantagem na luta, e ele também puxa alavancas e descobre itens escondidos que tornam mais fácil a vida do nosso herói. E ele vai precisar de toda a ajuda que conseguir, já que existem vários tipos de inimigos, que podem ser bem difíceis de se derrotar. Mortus continuamente revive os inimigos ao desenhá-los de volta no quadrinho e às vezes até os duplicando, mas espera-se que você aprenda a melhor forma de enfrentar cada um já que você os enfrenta várias vezes.

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Se primeiro inimigo é o Gravis, um enorme homem mecânico que usa de força bruta e uma estranha bobina metálica para bater em você. Logo depois dele aparece Strigil, um assassino com cabeça de polvo que utiliza duas espadas-gancho, bolas de fogo e teleporte para te confundir e te fazer e pedaços. Algumas áreas te coloca conta os pegajosos Spawn Mutants, com suas foices afiadas no lugar dos seus braços e que cospem ácido. Outro tipo de mutante são os Cocoon Crawlers, pquenas coisas parecidas com escorpiões que não são muito perigosos em si, mas atrapalham bastante quando você precisa lidar com outros inimigos e obstáculos. Existem também as “Flying Creatures”, criaturas cinzentas aladas chatas pra caramba, que te picam com suas caudas pontiagudas e geralmente estão colocadas nos lugares mais inapropriados. Styx é um monge armado com um bastão que o utiliza para atacar e se defender, lançando bolas de fogo e até quica pela fase como um pula-pula, enquanto anéis de energia tentam te atingir. Mongoria é uma guerreira que salta sem parar pela tela e te ataca com seu cabelo afiado, uma oponente difícil com uma fraqueza peculiar em relação à um dos itens de Sketch. E finalmente o raro Pelagus é alguém à ser evitado, sendo um mini-Cthulhu que dispara bolas de  gosma e planta minas no chão que são acabam com metade da energia de Sketch ao explodir. Acima dos inimigos normais estão três chefes únicos, um no fim de cada episódio, e apesar deles parecerem difíceis num primeiro momento, cada um tem uma manha onde você pode usar o cenário contra eles para facilitar as coisas para você.

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Pode-se dizer que os chefes são a parte mais fácil do jogo (talvez com exceção do segundo), mas as fases em si podem ser bastante difíceis. Comix Zone é um dos jogos mais difíceis e brutais já lançados durante a era 16-bit, e até mesmo vários jogos de 8-bit não são páreo para ele neste quesito. Pra começar, os inimigos podem ser surpreendentemente espertos e reagir aos seus ataques com frequência, e pode-se custar boa parte de sua barra de energia para se derrotar caras como Styx ou Pelagus em um confronto direto. Existem alguns puzzles diabólicos e armadilhas que geralmente custam um parte de sua energia para se transpor. Sketch pode dar ombradas em objetos sólidos, mas isso custa um pouco de sua energia. e existem vários pontos onde você deve usar de força bruta para vencer os obstáculos. À menos que você tenha uma bomba à mão, você acaba pagando com um pouco de sua vida para continuar. As soluções em algumas  áreas não são óbvias, como um buraco que gradualmente desce em direção à uma armadilha para ursos, ou campos minados que exigem saltos precisos. Sem dúvida uma das coisas mais diabólicas são as Flying Creatures que podem te acertar no momento exato para te derrubar em um abismo fatal e acabar com o você instantaneamente, independente do quanto de energia você ainda tinha.

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Existem algumas situações onde você pode escolher saltar entre dois quadrinhos  diferentes, permitindo rotas um pouco diferentes pelas fases. Existem também dois finais, dependendo do que acontecer na batalha final. Numa possível homenagem ao Revenge of Shinobi, uma personagem feminina, neste caso Alissa, está presa num dispositivo. Você precisa fazer certas coisas para salvá-la, além de derrotar Mortus, ou ela será morta, o que leva ao final ruim.

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E com tudo isso, você só tem uma vida e, a princípio, nenhum continue para ajudar. Itens que recuperar energia são raros, e você nem recupera energia depois de completar cada fase. Mas você pode ganhar um continue ou dois, em circunstâncias que não são bem claras. Se isso acontecer, Mortus diz que foi muito fácil te matar e que ele quer se divertir mais com você. Continues te mandam para o começo da página, sem itens, o que pode tornar as coisas ainda piores, dependendo da necessidade de se usar Roadkill ou uma bomba naquele momento, por exemplo. Esta dificuldade brutal é equilibrada de certa forma pela duração relativamente curta do jogo. Só existem seis fases ao todo, e nenhuma delas se prolonga demais. Mas tentar vencer o jogo é outra coisa, já que algumas partes mais complicadas ficam muito mais difíceis se você não tiver o item certo. A dificuldade de Comix Zone chega ao ponto de parecer que o jogo prefere te punir do que recompensar por prosseguir no jogo, o que faz que este jogo não seja recomendado para qualquer um.

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É uma  pena que um tesouro audiovisual com este seja um jogo de mecânica um pouco simplista e totalmente injusta. Comix Zone é um diamante não-lapidado que parece lindo, mas tem alguns detalhes e defeitos, se você o examinar com um lupa. Não é o jogo mais difícil de todos os tempos, mas parece que o seu design foi feito para forçá-lo à jogar o jogo várias vezes para aprender o que NÃO se deve fazer, tornando o jogo mais longo e menos frustrante. Mesmo assim, Comix Zone ainda merece reconhecimento pelo que ele é: uma maravilhosa realização técnica no Mega Drive, que provou que o console ainda tinha o que mostrar, mesmo com a próxima geração de consoles já ameaçando a sua existência.

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Apesar de eventualmente perder a batalha, Comix Zone teve no Mega Drive o mesmo papel que o Kirby’s Adventure teve no NES, sendo uma despedida do console com chave de ouro. É uma pena que a jogabilidade seja um tanto decepcionante, mas ela não é totalmente ruim,s e encarada do modo correto. O conceito do jogo funciona bem com a vibe “perdedor simpático” que o Sketch emana, com seus bordões e frases de efeito que dão muita personalidade à um personagem que outrora seria bastante simples. Talvez Comix Zone funcionaria bem melhor como um adventure point-and-click ao invés de um jogo de ação/luta, mas considerando que o único jogo adventure digno de nota no Mega Drive (sem contar o SEGA CD ou o 32X) é o surpreendente bom Scooby-Doo Mystery, ele não venderia muito bem se fosse um jogo deste gênero.

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Mesmo estando longe de ser perfeito, Comix Zone é adorado pelos fãs da SEGA e tem um status de clássico cult hoje em dia. Apesar das versões americana e européia serem baratas e fáceis de se achar, o jogo recebeu uma tiragem excepcionalmente pequena no Japão, tornando-o um título extremamente caro no mercado de usados. Para aumentar as vendas na época, a versão americana acompanhava um CD de bônus com, com músicas como “I Hate Rock and Roll” do the Jesus and Mary Chain, “Going Down to Die” do Danzig, e “No More Love” do God Lives Underwater. É um extra bacana, mesmo com estas músicas não tendo nada a ver com o jogo em si, uma jogada bem a cara dos anos 90, tornando o jogo quase que uma cápsura do tempo de uma era em que as empresas costumavam lançar um monte de coisas loucas promocionais para vender os seus produtos (como os inúmeros CDs e quadrinhos baseados no Mortal Kombat). Ainda mais bizarro é o CD de bônus que acompanhava as versões euroéia de para Windows do jogo, onde Howard Drossin pegou seis músicas do jogo, as remasterizou com instrumentos reais e até adicionou vocais hilários!. Este CD acabou depois sendo lançado nos EUA durante a brevíssima existência do selo SEGA Tunes (que também lançou outros álbuns similares de Sonic e Vectorman, entre outros).

Comix Zone recebeu uma versão para PC na época em que a Microsoft estava começando a empurrar o Windows 95 como uma plataforma de jogos competente o suficiente para competir com os consoles. Mas esta é uma conversão direta, sem melhorias, até rodando na mesma resolução baixa de 320×224 do Mega Drive. A trilha sonora é tocada pelo sistema MIDI do Windows, o que não é grande coisa.

Comix Zone é um tanto conhecido pelos gamers de hoje em dia devido às várias versões, incluindo uma inusitada conversão para o Game Boy Advance. Ela é considerada uma versão inferior, devido ao tamanho reduzida da tela e das sprites, cores apagadas, e instrumentos diferentes nas músicas, mas por muito tempo foi a única versão que existiu para aqueles que não vivenciaram Comix Zone quando ele foi lançado. Felizmente, conversões mais fiéis foram lançadas no Virtual Console do Wii e na Xbox Live Arcade, e na SEGA Genesis Collection para o PlayStation 2 e PSP, no Sonic Mega Collection Plus, também para PlayStation 2, no Sonic’s Ultimate Genesis Collection no PlayStation 3 e Xbox 360, além de versões para serviços de jogos para PC, como Steam e OnLive. Estas são versões emuladas do Mega Drive, ao invés da versão nativa para Windows 95. Existem uns poucos erros de som que atrapalham a ótima qualidade da música (com um bip chato que substitui o leve som de bateria na segunda metade da faixa da fase 1-2), mas fora isso são versões perfeitas, com controles e gráficos precisos.

Comparativo de Fotos

Vídeos

Versão para Windows 95:

Playlist com as faixas do CD de Bônus:

Playlist do CD (SEGA Tunes):

 

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