O extraordinário jogo da SEGA que joga VOCÊ

segaobscura

Por Mama Robotnik em 10 de abril de 2019

Lançado cerca de 25 anos atrás, o adventure mais extraordinário da Climax e da SEGA saiu para o SEGA Saturn. Por trás de uma caixa adornada com um CG horrível e sem muito alarde, está o fascinante Dark Savior.

Usei aqui as palavras “extraordinário” and “fascinante”no sentido literal. Este jogo precisa ser estudado, discutido e discecado.

Não estou dizendo que este é um dos melhores jogos já feitos; ele tem certas falhas, mas eu pessoalmente o tenho em mais alta conta. E além disso, não há nada parecido com ele no mercado, mesmo décadas após o seu lançamento.

O Jogo

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Dark Savior é um jogo adventure em visão isométrica, lançado para o SEGA Saturn em 1996 (EUA e Japão) / 1997 (Europa), e nunca foi re-lançado para outro sistema novamente.

Alguns descrevem Dark Savior como o sucessor espiritual do famoso Landstalker para Genesis/Mega Drive, também feito pela Climax, mas além de algumas similaridades superficiais, os jogos são bastante diferentes.

O que a maioria dos adventures faz:

RPG de ação, estilo japonês ou ocidental, com um sistema de combate em tempo real ou estratégico.

O que Dark Saviour faz:

O jogo é de ação de plataforma em 3D, combinando sprites detalhadas e colígonos coloridos em um belo mundo isométrico.

Quando o combate se inicia, o jogo inexplicavelmente vira um jogo de luta a la Street-Fighter com todos os itens do gênero (dois/três rounds, barras de energia, barra de ataque especial, golpes fortes e fracos, etc) COMBINADO á um sistema de captura a la Pokémon. O combate tem uma profundidade limitada, mas é divertido.

O que a maioria dos adventures faz:

Encoraja você à explorar o mundo, ou como um herói solitário, ou como uma equipe de campeões.

O que Dark Saviour faz:

O jogo se passa numa única ilha – uma antigo posto avançado, coberta de ruínas coloridas e castelos, que foi transformado por uma aliança de nações em uma enorme prisão.

Você controla um personagem horrível, rodeado por personagens horríveis. Você é Garian, um caçador de recompensas sem senso de humor, aliado ao regime corrupto que administra a prisão. Nos primeiros capítulos, Garian fica bêbado e quase mata uma criança, até que um fenômeno estranho e surreal interrompe tudo isso.

Os personagens secundários são uma coleção de assassinos, criminosos e déspotas.

Jailer’s Island contém cidades para criminosos menores, celas fortificadas e blocos para criminosos de periculosidade média, e instalações especiais para prisioneiros políticos ou prisioneiros de grande valor.

As políticas da região são pesadas. A administração pratica tortura e assassinato, e conta com instalações para utilizar os prisioneiros em experimentos antiéticos e agonizantes. Os prisioneiros tentam organizar alguma resistência, mas sendo eles mesmos vilões, são incapazes de fazê-lo de forma eficiente.

A variedade de ambientes é enorme. Desde as instalações da prisão até a mansão do Diretor, de catacumbas secretas à palácios de ouro, a ilha, toda interconectada, oferece um ótimo foco em exploração.

A(s) História(s)

O que a maioria dos adventures faz:

uma história, que se ramifica em várias escolhas, que levam à finais bons e ruins.

O que Dark Saviour faz:

A história nunca acaba.

Existem ao menos cinco linhas de tempo paralelas e distintas, que acontecem ao mesmo tempo e em sucessão. Dentro de cada paralelo, divisões maiores ou menores podem levar a história em direções diferentes – a SEGA Saturn Magazine (Edição 13) diz que existem ao menos 100 possíveis permutações na história e variantes de finais – mas falaremos disso mais tarde – o jogo em tecnicamente nunca acaba.

Só para ilustrar a diferença, aqui está um cenário:

O protagonista passa algum tempo perseguindo um monstro assassino chamado Bilan pela Jailer’s Island. Durante sua busca, descobrimos pelas ruínas e murais que esta encarnação de Bilan é uma de muitas que já apareceram ao longo da história, e que a apararição da criatura sempre está alinhada à um cometa em particular que passa pelo planeta à cada cinco séculos, sugerindo uma possível origem extraterrestre. A força e a ferocidade do monstro aumentam exponencialmente. Com a ajuda da administração da ilha, o protagonista mata Bilan antes que o monstro entre no seu ciclo reprodutivo, com o qual ele espalharia suas cópias por todo o mundo.

Jogue o jogo de novo. Este é outro cenário possível:

O protagonista mata uma versão enfraquecida de Bilan no começo do jogo, e passa o resto da história fazendo uma investigação secreta sobre a administração da ilha. Ele se infiltra na mansão do Diretor, e laboratórios secretos, salas de tortura e num complexo de mineração para descobrir que a prisão está usando trabalho escravo para escavar uma substância alienígena, selada sob a ilha – que é chamada de Bilanium. Este mutagênico é utilizado em experimentos antiéticos para transformar prisioneiros em soldados. Então o protagonista se alia ao movimento de resistência dos prisioneiros para impedir os planos terríveis do Diretor.

Jogue o jogo de novo. Este é outro cenário possível:

O protagonista chega em Jailer’s Island em meio à uma crise. Bilan está à solta, e espiões estrangeiros se aliaram com o movimento de resistência dos prisioneiros para desestabilizar a administração. As coisas saem de controle quando os rebeldes ganham acesso ao arquivo de congelamento em carbono no prédio onde os prisioneiros são executados – de onde eles podem reanimar os corpos dos piores e mais violentos criminosos que já existiram. O protagonista e o Diretor precisam botar um fim à esta loucura.

Jogue o jogo de novo. Este é outro cenário possível:

Os eventos paralelos, todos acontecendo ao mesmo tempo e em sucessão, estão destruindo as barreiras entre as realidades. Dois universos paralelos se conectaram à Jailer’s Island, e esta conexão está causando um cataclismo que está destruindo ambos os mundos. O protagonista deve encontrar em destruir sua própria versão do mundo paralelo – que é um assassino condenado – para garantir que sua realidade seja a dominante ez sobreviva, às custas dos habitantes do mundo paralelo.

Eu poderia listar vários outros cenários ainda. Algumas histórias falam sobre vida após a morte, enquanto outras falam de romance, famílias e linhagens secretas.

Cada cenário contém ambientes que se sobrepõe, sendo visitados em contextos diferentes, e também ambientes únicos, que só são visitados naquela história em si.

Este “sistema paralelo” é uma criação fenomenal. Sabendo que ao terminar uma história, outra história, e outra história, e outra história espera por você, é um enorme incentivo para se jogar novamente.

Seus aliados morrem, apenas para se tornarem aliados, inimigos, ou algo ambivalente na próxima aventura.

Não consigo lembrar um jogo onde você tem esta variedade de personagens, através desta variedade de cenários, com tantos finais possíveis.

O Sexto Paralelo

O que a maioria dos adventures faz:

O jogador joga o jogo.

O que Dark Saviour faz:

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O jogo joga o jogador.

“LETS. MEET. IN. OUR. DREAMS.”

Há um aspecto muito misterioso, subversivo e manipulador em Dark Savior, que só faz sentido se você levar em consideração tudo que foi mencionado acima. Vamos entrar num território cheio de spoilers aqui.

“It appeared as if the battle would continue for eternity.”

Eu te contei sobre o mundo de Dark Savior, com seus ambientes coloridos e personagens interessantes, da sua incrível variedade e interações e desenvolvimentos de enredo. E também da liberdade do nosso personagem para explorar o fascinante mundo da Jailer’s Island.

“Do you think Garian is still tormented over the incident?”

Mas de certo modo, isso não é verdade. O jogo é quem joga com você.

Quando uma história é completada, não há um “game over”. O protagonista acorda na sua cama no transporte de prisioneiros, e suas memórias da sua aventura anterior desaparecem. É assim que o jogo começa e termina, começa e termina, para sempre.

Através das histórias, aparecem pistas sutis de que os eventos que acontecem não são de verdade. Existem cuidadosas e repetidas referências ao mundo dos sonhos, e sobre estar preso de um jeito imperceptível. Os prisioneiros são atormentados por pesadelos, e citam memórias fragmentadas de outras aventuras paralelas.

“DID… YOU… EVER… THINK… I… MIGHT… HAVE… A… MIND… I… LOVE… I… LOVE…”

Nós descobrimos que a Jailer’s Island conta com uma punição para os crimes mais severos – Carbon Freeze (Congelamento em Carbono) – em que os prisioneiros são congelados enquanto vivos, aprisionados em uma prisão de sua própria mente, para sempre.

“Bounty Hunter! You are being arrested for murder!”

Lembre-se de quando escrevi aqui em cima, sobre o nosso personagem:

Você controla um personagem horrível, rodeado por personagens horríveis. Você é Garian, um caçador de recompensas sem senso de humor, aliado ao regime corrupto que administra a prisão. Nos primeiros capítulos, Garian fica bêbado e quase mata uma criança, até que um fenômeno estranho e surreal interrompe tudo isso.

Se você jogar cenários suficientes, você conseguirá pistas suficientes para descobrir o que realmente está acontecendo. O protagonista realmente matou a criança no começo do jogo. Ele foi sentenciado ao Carbon Freeze, onde ele é forçado à viver cada possível situação que aconteceria caso ele não tivesse matado a criança.

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You neglected your duty and killed an innocent child.”

Ele é forçado à vivenciar cada cenário da every Jailer’s Island sque sua mente imaginar. Às vezes, há pistas bem vagas disso, onde sua própria mente relembra o verdadeiro horror de onde você está.

“They say that once you are frozen in carbon, you’ll have endless nightmares… I wonder if that’s true.”

Ele tem sido prisioneiro por muito, muito tempo. É por isso que os cenários são tão exagerados, com alienígenas, conspirações, dominação mundial, armas mágicas, conspirações políticas, universos paralelos e mais – o protagonista está preso à tanto tempo que os eventos que ele imagina na ilha se tornaram absurdamente surreais – ao ponto de que os cenários à vezes vazam dentro um do outro.

“Torment yourself over the life you’ve wasted and regret it until your soul burns to ashes.”

Nada disso é mostrado explicitamente – não há nenhuma grande revelação em nenhum ponto – é apenas uma série lenta e gradual de pequenas revelações que criam a imagem da futilidade de Dark Savior.

“IF… ONLY… I… CAN… LIVE… AGAIN… I’M… SUFFERING… HELP… ME…”

Quando você descobre isso, você não vai mais querer jogar o jogo, já que à cada aventura subsequente, fica claro que é o jogo que está jogando com você. Toda vez que você completa uma partida, Garian acorda em sua cama, para mais uma rodada do seu purgatório auto-concebido.

Nenhuma conclusão dos cenários é feliz, há sempre perda e sacrifício. Afinal, eles são pesadelos.

Conclusão

Eu tiro o chapéu para Dark Saviour. Eu amo o mundo, os gráficos, a música, o estilo isométrico único e o sistema exclusivo de luta e captura. Adoro sua magnífica gama de histórias e surpresas. Eu gosto dos controles e do desafio (mas entendo que alguns discordam disso). Eu ainda estou embasbacado de como o jogo o jogo me manipulou como jogador.

Dark Savior é um jogo exclusivo do SEGA Saturn, e como vários outros títulos experimentais e ambiciosos que já agraciaram o sistema, ele nunca foi relançado em lugar nenhum novamente. Não houveram continuações, versões, sucessores espirituais, e tampouco inspirou outros jogos similares ou marcou a indústria de alguma forma. Ele recebeu sólidas notas de 80%, 90% nos reviews, e relendo alguns dos review da época, Eu não vi muito reconhecimento de sua extraordinária contribuição para o gênero.

E tenho quase certeza de que vendeu pouco, também.

Mas eu quero que você saiba que ele existe, e que não existe nada como ele por aí.

Vídeos

Playlist com a trilha sonora:

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