Especial Kujaku Ou – Parte 2: SpellCaster

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SpellCaster / Kujaku Ou (Master System) – 1988

Apesar de SpellCaster ser um dos jogos de Master System mais bem lembrados, pouca gente sabe que quando ele foi lançado em sua versão original japonesa, ele era um título licenciado de um popular mangá de ação/terror sobre um exorcista budista (veja a primeira parte deste especial para mais detalhes). Já que o mangá não foi publicado no ocidente, todas as suas referências foram removidas nas versões lançadas fora do Japão. O herói, Kujaku (ou Peacock [N.T.: “Pavão”, em português]), teve seu nome alterado para Kane, e sua roupa de monge foi substituída por um macacão sem mangas, mais próprio de um lutador marcial. Seu mestre, Jikuu, virou Daikak, seu amigo/rival Onimaru se tornou Jukak, e sua amiga de infância Asura recebeu o nome de Regina, e suas aparência também foram alteradas. Seus papéis no jogo japonês já eram bem diferentes dos seus papéis originais no mangá, com isso as mudanças na localização ocidentais são em sua maioria apenas superficiais.

A história sobre a origem licenciada de SpellCaster já é bem conhecida, mas ainda poucos sabem que ele tem muito conteúdo em comum com um jogo para Famicom também chamado Kujaku Ou, lançado apenas dois dias antes. Apesar dos dois terem sido desenvolvidos e lançados por empresas diferentes – Graphic Research/Pony Canyon e a SEGA, respectivamente – ambos são obviamente baseados no mesmo script. Cerca de metade do SpellCaster consiste em sequências ao estilo “graphic adventure”, onde você move um cursor para examinar coisas, falar com NPCs e resolver quebra-cabeças simples; estas sequências são de fato uma versão mais resumida do jogo para Famicom. A parte final do jogo é bastante diferente, e o primeiro capítulo, onde Kujaku investiga uma série de mortes misteriosas em uma vila de pescadores foi removida, mas a história (e até os quebra-cabeças) são os mesmos.

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Ao saber de uma série de ataques contra os templos locais, o sábio Daikak envia Kane, seu discípulo, para investigar. Kane rapidamente descobre sobre o envolvimento do clã Iwato, que pretende reviver o Deus Serpente para resolver uma antiga disputa. Mas pode haver mais por trás disso? Obviamente a resposta é “é claro”. Como um todo, é uma história relativamente intrigante, com algumas reviravoltas interessantes, mas há uma parte mais para frente que ou é mal-explicada ou foi mal-traduzida, que acaba deixando as coisas um pouco confusas. Fora isso, a tradução não é ruim para os padrões da época, mas os erros de digitação são bastante frequentes.

Apesar de ambos os jogos contarem com os mesmos personagens e lugares, eles tem visuais completamente diferentes. O jogo do Famicom se passa claramente no Japão atual, com arranha-céus e lojas de conveniência, enquanto o jogo do Master System é cheio de vilas ruais e templos orientais – se não fosse por pequenos detalhes, como uma TV ao fundo na cabana de um pescador, você pensaria que o jogo se passa em algum mundo de fantasia medieval. Na verdade, o manual da versão ocidental faz parecer isso. Da mesma forma, os Iwato aparecem usando simples máscaras e armaduras marrons no Famicom, e armaduras coloridas e elaboradas no Master System.

Do geral, a versão da SEGA tem um visual ótimo, com ilustrações mais detalhadas, mais cores e designs mais legais nos personagens. Algumas artes lembram o Phantasy Star, e na verdade dois dos artistas do do jogo haviam trabalhado nele no ano anterior: Rieko Kodama, que mais tarde dirigiria e produziria alguns dos jogos mais bem lembrados da SEGA, e Naoto Ohshima, que entre outras coisas, fez o design do personagem Sonic.

A outra metade do SpellCaster é composta por fases de ação lateral. Apesar de Kane ser um pouco lento, ele geralmente controla bem, sem nada dos controles escorregadios encontrados em vários jogos de plataforma do Master System, mas você precisa se acostumar a mirar no meio das plataformas, já que alguns pulos que parecem que vão alcançar acabam não alcançando. Para funcionar junto com o formato adventure, ao morrer você só é levado de volta ao Summit Temple de Daikak, onde você pode escolher recomeçar a fase ou dar uma tempo e continuar a sua aventura depois, usando um tedioso sistema de senhas. O combate é feito somente com projéteis; você pode disparar bolas de fogo de energia espiritual ou carregá-las para um ataque mais poderoso, apesar deste último ser raramente útil. Existem vários upgrades de armas e armaduras, mas eles não mudam a jogabilidade do jogo, com exceção de uma coisa; com uma arma mais forte, um único disparo pode atravessa um inimigo mais fraco e matar um segundo, o que é um detalhe bacana. Você não pode andar e atacar ao mesmo tempo, e a maioria dos inimigos costumam se jogar contra você, logo o combate parece ser mais defensivo que ofensivo, e depende muito de um timing correto. Os chefes geralmente se movem mais rápido que você, o que torna alguns dos combates mais complicados do que deveriam.

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O que separa a jogabilidade destas seções dos outros jogos do gênero são as magias à sua disposição. Existem 8 delas, todas disponíveis desde o começo; 5 magias de ataque, cada uma com seus próprios padrões de ataque e níveis de força, uma magia de cura, uma magia de proteção, e a mais legal de todas, uma uma magia que permite que você voe por algum tempo (ou até você ser acertado). Ao contrário da maioria dos jogos que tem magias, você não tem um medidor de MP que pode ser restaurado de uma vez só. Ao invés disso, à cada dez inimigos mortos, eles ou deixam uma esfera azul, que recupera energia, ou uma laranja, que recupera 10 pontos de magia; é tecnicamente possível armazenar até 999 destes desde o começo. Já que magia é algo caro, você precisa ter um cuidado extra em utilizá-la, e você talvez até precise fazer um pouco de “grinding” para não ficar sem MP na parte mais difícil do jogo, uma fase onde você precisa voar sobre um mar de lava por um período maior de tempo, enquanto desvia de inimigos voadores que tentam te derrubar.

Mas usá-las é um pouco desajeitado. Para equipar uma magia, primeiramente você precisa dar pausa e equipá-la através de um menu – se você está jogando num Master System mesmo, isso significa apertar um botão pessimamente localizado no console em si. Então, uma vez com ela equipada, você precisa segurar o botão de ataque e então apertar para baixo. Isso torna fácil acabar desperdiçando vários pontos de magia, logo é melhor não ter nenhuma magia equipada quando você não precisar delas. Isso também significa que não dá para atacar enquanto estiver agachado.

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Você pode se agachar, mas tem que se levantar para lutar

Por cerca da primeira metade do jogo, mais ou menos, as coisas andam bem. As fases são curtas, divertidas e bem planejadas, e os segmentos de adventure são bem direto ao ponto (algo que ajuda é ler o manual e se familiarizar com o que cada magia faz, já que elas também são usadas em alguns quebra-cabeças) e servem basicamente para avançar a história. As coisas mudam drasticamente quando você chega na pirâmide – um labirinto enorme e confuso cheio de portas para becos sem saída e escadas que levam à lugar nenhum, que é tão longa de se resolver quanto todo o resto do jogo antes dela. Há algumas coisinhas que marcam seu progresso, como alguns subchefes e inimigos que aparecem em padrões diferentes, mas um labirinto complexo desse vai agradar mais os fãs dos dungeon crawlers old school do que os jogadores de ação lateral. Os últimos segmentos ao estilo adventure depois disso são com certeza piores, exigindo que você vá e volte várias vezes por uma faze cheia de inimigos irritantes, e você tem que falar com vários diferentes NPCs e tentar todos os comandos aleatoriamente, na esperança que alguma coisa aconteça. Há até um chefe que deve ser derrotado rapidamente antes que ele fuja e não volte nunca mais, te forçando a recomeçar do seu último password.

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O submundo tem q ser atravessado várias vezes

Mas a última série de combates é bem bacana, onde o jogo muda para um modo de shooter vertical por alguns minutos, uma idéia que a SEGA reprisaria em uma forma diferente no Michael Jackson’s Moonwalker, um ano depois.

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Como em muitos jogos para Master System, existem basicamente duas trilhas sonoras diferentes. Havia um acessório para o SEGA Mark III que permitia o uso de som em FM, que mais tarde foi integrado nas revisões seguintes do console no Japão, mas nunca chegou ao ocidente. Se você jogar SpellCaster em um Master System comum, você vai ouvir as versões básicas em PSG das faixas, mas se você jogar num console modificado ou por emulação, você tem acesso às versões em FM. No geral, as melodias são boas em ambas as versões, mas a percussão e os canais de som adicionais da trilha sonora em FM dão mais impacto.

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A tela de título japonesa é muito mais legal

SpellCaster também foi um dos vários títulos de Master System portados mais tarde para o Mega-Tech, um Mega Drive modificado, projetado para rodar uma série de jogos domésticos nos fliperamas. O jogo em si é o mesmo, exceto pelo fato que você tem que gastar fichas para jogar alguns minutos.

Apesar de ter uma parte final frustrante, SpellCaster ainda é um jogo de destaque na biblioteca do Master System, e um dos poucos jogos, se não for o único, à misturar estes dois gêneros em específico desta forma. Apesar do Master System ter continuado ativo nos EUA, e por muito mais tempo na Europa e no Brasil, ele foi um dos últimos grandes títulos lançados para o console no Japão, perto do fim de 1988; em 1989, a SEGA redirecionou todos os esforços para o Mega Drive e seus títulos para os fliperamas, cancelando alguns futuros lançamentos para Master System no processo. Um dos seus primeiros jogos para Mega Drive seria outro título baseado no mangá de Kujaku Ou, lançado no ocidente com o nome de Mystic Defender.

Links

Renta – este serviço de aluguel de mangás online publicou três volumes de Peacock King em inglês antes de cancelá-lo. O site é NSFW, já que a maioria dos mangás ali são eróticos.

Hokuto no Gun & Happy Scans – estes dois grupos de tradução assumiram a tradução do mangá em julho de 2018.

SEGA Retro – contém informações sobre o lançamento do jogo e scans do manual americano.

Romhacking.net – hack da ROM do jogo que permite salvar seu progresso em SRAM ao invés de usar senhas.

 Mais Fotos

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Vídeos

SpellCaster:

Trilha sonora japonesa:

Comercial japonês:

À seguir: Mystic Defender!

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