Quando a SEGA enfrentou o Zelda, foi direto na jugular

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Por Mama Robotnik em 14 de Abril de 2019

Há um jogo que eu mencionei no num artigo anterior (“Os 11 Zeldas da SEGA“) que merece absolutamente ser melhor explorado. Este jogo é o Crusader of Centy (EUA) / Soleil (Europa) / Ragnacenty (Japão), que é fascinante por diversas razões.

Contexto

“That was dangerous. That man is a Hero, so you have to be careful.”

Crusader of Centy – da Nextech e SEGA – foi lançado em 1994, durante o auge da guerra dos consoles de 16 bits. Ele pontuou bem nos reviews, mas há pouca informação sobre o quão bem ele foi divulgado e quanto ele realmente vendeu.

Desde seu lançamento, o jogo nunca mais foi mencionado pela SEGA novamente. Não houve relançamentos, versões, coleções nada que confirmasse que esse jogo sequer existiu.

Para aqueles que tiveram sorte suficiente de jogar o jogo, o desinteresse da SEGA para com este título parece incompreensível. Crusader of Centy é nada mais nada menos que a obra-prima da SEGA no gênero dos RPGs de ação.

“See those ruins? Well, I don’t know much about them, but they used to belong to the humans. They probably had a war. They like fighting with each other, don’t they?”

A empresa partiu pra cima do Zelda com este jogo. Ela partiu pro ataque, buscando não só enfrentar a principal franquia de aventura da sua rival, a Nintendo, mas também minar todos os lugares-comuns e questões morais da franquia Zelda como um todo. Eles tentaram criticar a integridade de Zelda, com uma crítica muita mais mordaz e contundente do que qualquer slogan “Sega Does What Nintendon’t” seria capaz de fazer.

Espero que isso fique mais claro ao longo do artigo.

O Jogo

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A SEGA não buscava imitar o Zelda, mas sim ultrapassá-lo. Mas cabe ao jogador, é claro, decidir se eles realmente conseguiram.

Crusader of Centy é uma conquista impressionante. É um jogo visualmente e sonoramente vibrante, com mecânicas sólidas e todos os aspectos são bem fluídos em sua execução. Apesar da influência do Zelda ficar clara, a SEGA pegou o formato já estabelecido e resolveu focar nos aspectos menos desenvolvidos pela própria Nintendo.

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O jogo foi desenvolvido em torno da mobilidade e agilidade. Os jogadores saltam por mares tempestuosos e abismos de fogo, usam vendavais e furacões para serem levados por enormes distâncias. Pisos podem ser frágeis, e o o jogador logo aprende a importância de pular e correr. Há verticalidade no jogo – e apesar disso envolver escapar de abismos e quedas – suas opções de mobilidade e capacidades do personagem são tão bem desenvolvidas que os abismos ocupam várias e são facilmente navegáveis.

Esta mobilidade também se aplica à luta com a espada – ela pode ser arremessada e imbuída de magia para se tornar uma lâmina giratória por controle remoto, com seu próprio foco de câmera. O jogador pode guiar esta arma contra inimigos aterrorizados, para desbravar o caminho à frente e para recuperar itens e segredos em lugares inalcançáveis.

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O sistema de powerups é algo muito inspirado.

Existem dezesseis criaturas no mundo que se oferecem para se juntar à sua equipe. Cada uma delas pode ser equipada para te oferecer uma gama de poderes que incluem as seguintes habilidades: ricochetear sua espada nas paredes, aumentar sua velocidade de corrida, embuir suas armas com gelo e fogo, paralisar os inimigos, atravessar barreiras físicas e outras coisas. Estes companheiros oferecem opções consideráveis de combate, exploração e avanço no jogo.

Até dois destes companheiros pode ser ativados simultaneamente (enquanto o resto fica dormente no sistema de menus), e os dois escolhidos reagem entre si e combinam as suas habilidades, criando poderes que não são oficialmente documentados no jogo. Alguns destes são fenomenais, recompensando bastante o jogador que fizer experimentações com este sistema.

Apenas alguns destes animais-companheiros são obrigatórios, sendo que os demais pode ser encontrados em sidequests opcionais, ao se desvendar segredos o através de um mecanismo onde o jogador pode alugar suas habilidades durante a aventura.

Este sistema é muito bem executado, e dá ao jogo uma profundidade próxima de jogos do estilo Metroidvania.

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Crusader of Centy também encoraja a manipulação do ambiente, onde o jogador deve procurar por oportunidades para transformar o cenário em benefício próprio. Desde desviar um fluxo de lava que corre pelo coração de uma floresta, até para criar uma cachoeira para escorregar montanha abaixo – estas mudanças são irreversíveis e, ficando alterando o mundo do jogo permanentemente.

O Mundo

“You are the one that is going to change the world for better or for worse. Soon there will be a change in yourself.”

O mundo de Centy é bastante vasto. Apesar das convenções do Zelda estarem presentes (floresta, montanha de lava, castelo de gelo, pântanos, palácios, desertos, etc), existem novas idéias de ambientes presentes. Ao longo de sua jornada, o jogador viaja pelo corpo de carne e osso de uma enorme montanha viva, salta por um reino surreal de pés de feijão e nuvens, e enfrenta avatares dos cinco sentidos em um vácuo inter-dimensional.

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À medida que o jogo avança, estes ambientes mudam bastante, seguindo a narrativa – primeiro com fenômenos meteorológicos bizarros (uma neve mágica envolve os reinos), e então em termos de viagem no tempo.

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Os locais de Centy não se conectam da mesma forma que em Hyrule – usando um mapa geral ao invés de fazer todas as áreas se conectarem como num quebra-cabeça. Apesar disso parecer menos imersivo para algumas pessoas, na prática funciona muito bem.

A História

É aqui que as coisas ficam realmente interessantes. É aqui que estes excelente rival do Zelda se torna algo realmente único. Crusader of Centy não cessa de atacar as definições do Zelda. Desde o herói da profecia, confiando na orientação divina, resgatando a princesa e a monstruosidade dos monstros, o jogo desafia a moralidade deste gênero de jogo.

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Eis uma versão bastante resumida da história:

1. Você joga como um garoto numa vila em seu aniversário. Como parte da cerimônia desta idade, seguindo a tradição de vários heróis lendários, você recebe uma túnica e uma espada.

2. Você recebe a tarefa de treinar e proteger a sua civilização dos monstros.

3. Você se aventura pelo mundo, descobrindo novos lugares, enfrentando monstros e alcançando lugares fantásticos.

4. Você eventualmente acaba viajando de volta no tempo para vários momentos do passado, para entender a história secreta de seu mundo.

5. No fim, você enfrenta um inimigo mágico para salvar o mundo dos monstros. FIM.

Um jogo típico do gênero, aparentemente. Vamos observar mais à fundo e tentar entender como diabos a SEGA fez este jogo passar pela censura.

1. Você joga como um garoto numa vila em seu aniversário. Como parte da cerimônia desta idade, seguindo a tradição de vários heróis lendários, você recebe uma túnica e uma espada.

“Young man, take your sword! Now is the time to fight.”

O jogo começa numa cidade a la Zelda, onde o jogador está fazendo aniversário, e segundo a tradição, recebe sua espada e túnica – tudo coisas normais do gênero. Logo aprendemos que vários heróis já defenderam a cidade dos monstros – e foram imortalizados e transformados em lendas e estátuas.

“I got a bit too excited, but now I’m under control… Let’s hunt the monster!”

Através da viagem no tempo e de outras técnicas narrativas, descobrimos que estes “heróis” são assassinos doutrinados, criados por sábios e reis desiludidos para matar tudo que for diferente que estiver à sua frente. Eles massacraram milhares de outras inocentes criaturas sentientes – o jogo deixa bem claro que estes guerreiros mataram famílias inteiras, incluindo suas crianças, por não serem humanas o suficiente.

A tradição que dá ao jogador sua túnica e espada é uma tradição de sangue.

2. Você recebe a tarefa de treinar e proteger a sua civilização dos monstros.

“Why do you eliminate us? Is this land for humans only?”

No mundo de Centy, existe a raça humana, e existe uma grande variedade de criaturas diferentes que são chamadas de “monstros”. Todos eles são mortos pela espada dos humanos.

A viagem no tempo nos mostra que, num passado recente, os monstros mandaram uma delegação de paz ao feliz e colorido castelo da cidade. Eles foram perseguidos e encurralados na igreja pelos preconceituosos moradores, que então chamaram os soldados.

“Move away! I heard a report that there is a monster inside this church!”

A Guarda Real entrou na igreja e executou as criaturas, que estavam ajoelhadas em frente ao altar, rezando pela sua salvação.

A história do mundo é explorada mais à frente no jogo – numa era primordial, um fenômeno dimensional fundiu dois mundos diferentes, o reino dos humanos com a terra dos “monstros”. Os humanos primitivos atacaram os monstros onde pudessem encontrá-los, e os monstros aprenderam à atacar os humanos à primeira vista, para se protegerem.

“Humans will attack anyone, just for being a monster. Be careful.”

Isso é trabalhado em um capítulo onde o jogador é transformado em um “monstro” – uma esfera gelatinosa – e solto numa floresta.

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Os “heróis” humanos te perseguem sem parar, tentando te matar, como foram sempre ensinados à fazer. Você procura refúgio com uma família de monstros que estão aterrorizados, com a mãe morrendo de medo que os humanos matem seus filhos. Não fica claro se alguém desta família sobreviveu.

“And what really is “light”? The opposite of darkness? Just like the stars in the sky, so full of mysteries…”

O personagem do jogador também é alguém doutrinado, não diferente dos demais humanos. mais perto do fim do jogo, ele mata uma criatura conhecida como “Monster Mother”. A pacifista inimiga – que não cometeu crime algum – e que suplica para a sua consciência, e depois pela sua própria sobrevivência, enquanto o Crusader of Centy enfia sua espada em seu coração.

Existe um motivo pelo qual o título do jogo se refere à você como “Crusader” (Cruzado), com toda a bagagem que este nome carrega.

3. Você se aventura pelo mundo, descobrindo novos lugares, enfrentando monstros e alcançando lugares fantásticos.

“Come to know the depth of your sin.”

O miolo do jogo envolve você invadir um paraíso de tema judaico-cristão para chegar à Deus antes que o monstro principal o faça. Você escala a própria Torre de Babel e além, para chegar ao paraíso do além-vida. O monstro principal busca uma audiência com Deus para implorar por ajuda contra a raça humana. O jogador mata o monstro na frente de Deus, garantindo que seu pedido nunca será ouvido.

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Deus fica indignado. Seu ato de violência em Sua frente O faz condenar toda a raça humana, e Ele te devolve ao planeta, garantindo que Sua ira irá chegar.

“Now is the time to end the long history. The laws of nature shall exist no more and the world of Centy shall come to an end.”

Os sistema de clima ficam descontrolados à medida que o apocalipse avança e a humanidade é destinada à extinção. Parabéns, jogador. Você causou o fim do mundo ao provocar Deus.

4. Você eventualmente acaba viajando de volta no tempo para vários momentos do passado, para entender a história secreta de seu mundo.

“I was captured to work as a slave.”

No meio da tempestade apocalíptica um tornado viajante no tempo aparece. Ele não veio de Deus, mas de uma entidade desconhecida que aparentemente é bem mais poderosa. O jogador usa este fenômeno para voltar à vários pontos no passado, para encontrar um jeito de impedir o fim do mundo.

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Com isso descobrimos que a humanidade merece este destino. Vemos cabanas improvisadas próximas à um tempo parcialmente construído, o que implica que escravos construíram todas as dungeons. Testemunhamos a perseguições e execuções de suspeitos simpatizantes de monstros. Vemos os horríveis feitos de uma espécie brutal e sem salvação.

“People who are tried as monsters are being locked away. I have a feeling that they have already been executed.”

O jogador volta no tempo para a sua própria vila, e indiretamente ajuda à matar alguns monstros pacíficos – isso faz com que ele inspire a própria tradição que o levou à receber sua espada e sua túnica no início do jogo.

5. No fim, você enfrenta um inimigo mágico para salvar o mundo dos monstros. FIM.

“If we…die…where will we end up…?”

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Finalmente aceitando que a raça humana e os monstros jamais poderão coexistir, o jogador viaja aos primórdios da história, ao ponto em que a dimensão dos humanos e a dimensão dos monstros se fundiram. Ele encontra a jovem Mãe Monstro, e aterroriza ao lhe mostrar parte do seu futuro cadáver.

“One day, there was a change in the world. ‘Let there be light!’ With that voice as a signal, light began to fill this world. Countless monsters died who had no resistance to the light.”

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A batalha final ocorre entre o jogador e as misteriosas energias dimensionais. Ao desestabilizá-la, a fusão das dimensões é cancelada, e o mundo dos humanos e o mundo dos humanos permanecem em mundos paralelos separados.

“Even if you defeat me you will not be able to mend people’s hearts.”

No fim, você retorna á sua vila, tendo apagado toda a história, incluindo a ira de Deus. Seus esforços criaram um mundo onde a raça humana ficou contida, sem ninguém para perseguir e matar, e eles vivem em relativa estabilidade. Sem um inimigo em comum, não fica claro quanto tempo demorará para que a humanidade se volte contra si mesma.

Os monstros entretanto, foram finalmente salvos da maligna raça humana.

Dúvidas

“You’ve seen a sad dream. But because there is an end, you know there must be a new beginning. It is full of life here. Whenever one dies, another is born.”

Como esse jogo foi lançado sem gerar controvérsia?

Você invade o Céu e derrama sangue em frente um Deus (bem judaico-cristão), que então se torna o antagonista.

A raça humana é uma massa vil e tóxica, que utilizia dos conceitos de heroísmo e tradição para contextualizar sua sede de sangue.

Você é um assassino, que mata criaturas inteligentes e pacíficas, sendo que algumas até suplicam por suas vidas.

Dungeons e templos – estes comuns elementos do gênero – são produtos de sofrimento e escravidão. Sua diversão foi construída com pedra e sangue.

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Com Crusader of Centy, a SEGA não pretendia apenas desafiar o sucesso de Zelda, mas sim também desconstruí-lo. Quando você estava em Hyrule, todos os monstros realmente mereciam a sua espada? Os famosos templos e dungeons, ele realmente valiam todas as vidas que eles custaram? Você é realmente o herói? Link é alguém violento porque escolhe ser, ou porque um ancião o disse para ser assim?

Conclusão

“You must control your future. Though it may be difficult, you mustn’t give up.”

Crusader of Centy é um jogo incrível. O produto como um todo – desde a jogabilidade rápida e fluida, as brilhantes músicas e visuais, e sua história bastante provocativa – o pacote como um todo teve um impacto maior em mim do que a própria obra-prima da Nintendo, A Link to the Past. Mas entendo entretanto que eu faço parte de uma minoria.

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Este título magnífico e ambicioso deveria ter sido apenas o primeiro de uma franquia espetacular. Ele não teve continuações, o que é algo bastante confuso.

O fato do jogo nunca ter sido relançado, convertido ou apresentado aos jogadores de nenhuma outra forma é algo inacreditável. Esta é uma das jóias mais intrigantes da SEGA, e merece ser conhecida por muito mais pessoas.

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