A sequência mais consistente de cagadas em toda a história dos vídeogames (1/2)

segaobscura

Por Mama Robotnik em 25 de Junho de 2020

Eu amo o SEGA Saturn.

Na série SEGA Obscura eu apresentei vários textos homenageando a SEGA. Em um dos textos anteriores eu comentei que o Saturn foi o console mais catastroficamente mal-gerenciado que já existiu – e aqui quero falar mais sobre isso.

Já que acabamos de passar (agora em 2021) por uma excitante transição entre gerações de consoles, é interessante olhar para trás para o console que mais deu errado.

Isso não deve te impressionar se você já leu alguma coisa sobre a história do Saturn. Este artigo contém alguma profanidade, também – eu não estou tentando ser descolada aqui, só estou escrevendo com o meu coração. A arrogância da SEGA nesta época é de fazer o sangue de qualquer um ferver!

Esta é a história de uma empresa que estava surfando alto no tremendo sucesso do Genesis/Mega Drive e então fodeu com TUDO. Cada decisão tomada foi uma cagada. Cada estratégia, cada escolha, tudo que a SEGA fez foi uma cacofonia de pequenas, médias e grandes cagadas, que contribuíram para a catástrofe que foi o SEGA Saturn.

Nós já presenciamos muito drama nestas indústria: nós presenciamos o sucesso do Wii, seguido do fracasso do Wii U. Vimos as vendas absurdas do PS2, seguidas do problemático PS3. Nós vimos o Xbox 360 se revelando como um produto falho devido ao RROD (Red Ring of Death), e testemunhamos a própria SEGA deixar o mercado de hardware depois de perder a mão com o Dreamcast.

Tudo isso foi coisa pequena perto do SEGA Saturn. Estas falhas foram resultado de algumas decisões ruins, mas nenhuma delas se compara com o enorme volume, densidade e qualidade das cagadas que a SEGA conseguiu fazer com o Saturn.

Algumas delas foram triviais e muitas delas tem foco no ocidente. É verdade que o Saturn teve um sucesso no Japão, mas tal sucesso acabou sendo eclipsado pela escala do seu fracasso em todo o resto do mundo.

Contexto

Estamos nos anos 90. SEGA estava na crista da onda, o Genesis/Mega Drive era um sucesso internacional, com um fantástico número de vendas de hardware e software. Suas IPs eram fantásticas, com Sonic the Hedgehog se tornando uma estrela internacional. Nada poderia dar errado.

Até, é claro, que deu.

Cagadas anteriores ao Saturn

SEGA CD e 32X

Ao invés de focar suas energias no sucessor do seu garoto prodígio de 16 bits, a SEGA alocou recursos vitais no desenvolvimento de dois periféricos caros e fracassados. O SEGA CD e o SEGA 32X não venderam bem, custaram muito dinheiro, consumiram recursos de pesquisa e desenvolvimento e tomaram softwares que poderiam ter sido poupados para o Saturn. Sonic CD, Snatcher, Chaotix, Keio Flying Squadron, Shining Force CD, Star Wars Arcade – se estes tivessem sido lançados para o Saturn, eles teriam aumentado significantemente a linha de títulos disponíveis no lançamento e dado o tão necessário momentum que o console precisava.

Morte Prematura do Genesis / Mega Drive

A SEGA matou o seu desenvolvimento interno de softwares para o seu console 16 bits, apesar dele ainda estar vendendo bem. Eles não precisavam realmente correr com o desenvolvimento para o Saturn, mas o fizeram e mataram prematuramente uma fonte de renda que poderia tê-los ajudado muito com os gastos do lançamento do Saturn. Alguns confirmam que o Genesis/Mega Drive contava ainda com pelo menos mais um ano de lucro à sua frente.

Políticas Internas

Dentro da SEGA permitiu-se que tensões políticas se acalorassem entre os ramos oriental e ocidental da empresa. Este pode ter sido o veneno que consumiu a empresa durante a época do Saturn. O Sonic Team até podia proibir um time ocidental da SEGA de suar a sua engine de software, apesar desta engine ser PROPRIEDADE DA SEGA.

Imprudência Financeira

Enquanto a Nintendo mantinha reservado vastas quantias de dinheiro para o caso do seu sucessor do SNES falhar, a SEGA não tinha o olhar tão atento ao futuro. Se seu próximo console fosse um fracasso, isso poderia colocar todo o futuro da empresa em risco.

Cagadas de Desenvolvimento

Hardware

A SEGA começou o desenvolvimento sem saber o que eles queriam que o Saturn se tornasse. Eles continuaram à adicionar componentes até em estágios bem avançados de desenvolvimento, tornando o console num monstro extremamente complexo, o que ele não precisava ser.

Sem consulta ou comunicação

Vamos dar uma olhada na concorrência: a Sony consultou seus parceiros externos durante o desenvolvimento do PlayStation, para garantir que o produto final atendia à suas necessidades.

Vamos agora ver a cagada: a SEGA não fez consulta alguma, construindo e programando uma monstruosidade com que ninguém em juízo perfeito iria querer trabalhar.

Team Andromeda, um dos times internos de desenvolvimento de jogos da SEGA, foi forçado à fazer o seu jogo, o Panzer Dragoon, sem realmente saber do que o hardware do Saturn era capaz. Eles tiveram que arriscar palpites sobre o que o Saturn seria capaz de fazer e programar seu jogo sem nenhuma informação sobre o hardware que estava sendo desenvolvido dentro da mesma empresa.

Bibliotecas de Software e devkits de merda

Vamos novamente olhar a concorrência: a Sony criou bibliotecas e devkits acessíveis e comparativamente fáceis para ajudar os desenvolvedores que quisessem trabalhar com o PlayStation.

Voltando para a cagada: a SEGA forneceu softwares impenetráveis que só seriam atualizados após o lançamento do console e vendeu devkits meia-boca e mal documentados, os quais exigiam que os proprietários possuíssem componentes externos para as unidades funcionassem corretamente. Em consequência disso houve pouco suporte de terceiros no lançamento, já que poucos programadores conseguiram investir o tempo necessário para desvendar esta porcaria toda.

Como a Sony – que sequer havia entrado oficialmente na indústria dos vídeogames naquele momento – sabia o que estava fazendo e estava fazendo bem melhor que as experientes equipes da SEGA, é algo que jamais vamos conseguir compreender.

Pouca coordenação com os times dos arcades

A SEGA era uma empresa grande no ramo dos arcades. Suas equipes estavam lançando vários grandes jogos e isso trouxe uma oportunidade – a SEGA poderia pedir para os seus desenvolvedores dos arcades para criar jogos com eventuais conversões para o Saturn em mente – com isso eles poderiam capitalizar estas equipes e economizar tempo e recursos ao trazer estes jogos para o Saturn, aumentando a lucratividade de toda a empresa.

Eles obviamente não fizeram isso, por algum motivo.

A SEGA eventualmente reconheceu este erro e começou à encorajar uma sinergia melhor entre os times de desenvolvimento de jogos para consoles e arcade, mas isso só aconteceria anos depois do lançamento do Saturn, tarde demais para ter algum impacto.

Um slot de cartucho igual do Genesis/Mega Drive, mas que não roda jogos de Genesis/Mega Drive


O Saturn tem um belo slot de cartucho atrás do drive de CD, que é quase idêntico em tamanho ao dos cartuchos 16 bits. Isso fez parecer que você poderia inserir ali um dos seus cartuchos antigos ali e se divertir com a retro-compatibilidade enquanto esperava que os jogos para Saturn acabassem sendo lançados. Isso teria sido uma “feature” interessante, já que nenhum console daquela época tinha algo assim.

Mas não, apesar de ter um slot de mesmo tamanho do slot do Genesis/Mega Driveem cima do console, ele seria usado só para cartões de memória e expansões. A SEGA resolveu provocar com este design sem motivo algum.

Além disso, o slot de cartucho tinha uma séria falha em seu design – pois afinal tinha que ter. Se você inserisse um cartucho de memória muitas vezes, os conectores ficava frouxos e o sistema parava de reconhecer o slot, impedindo que você salve seus jogos externamente, algo que era vital em certos jogos.

O design mais cagado de caixa de CD na história dos vídeogames

Por algum motivo, a SEGA decidiu que cada região teria um design de caixa diferente para os CDs de jogos do Saturn. Na Europa, os jogos de Saturn vinham em caixas pretas que não fechavam direito e não seguravam o CD no lugar com segurança, além de serem frágeis e fáceis de quebrar, o que fazia os discos se soltarem e riscarem. Eu jogo vídeogames desde o ZX Spectrum até o Switch e nada é tão cagado quanto estas caixas européias do Saturn.

Mais tarde eles optaram com caixas moldadas mais robustas, também pretas, mas isso foi tarde demais no ciclo de vida do Saturn para compensar os vários jogos perdidos e danificados.

Cagadas de Lançamento

Lançamento estúpido e espontâneo nos Estados Unidos

Parece que a SEGA decidiu que o Saturn – o produto no qual repousava o sucesso ou fracasso da empresa como um todos – não precisava de muita divulgação. Na E3, o presidente da SEGA of America subiu ao palco e anunciou que o console estava já ali disponível, por 399 dólares. Ele simplesmente apareceu nas prateleiras, com pouca pompa ou explicação.

Nesta época em que ainda não havia a popularização da internet, a notícia de que o Saturn encontrava-se disponível nas lojas eventualmente chegou ao público através das revistas e de outras mídias de comunicação – levando semanas – enquanto os consoles juntavam poeira.

Caro Demais

Ele custava 399 dólares. O PlayStation por sua vez tinha o famoso preço de 299 dólares. Mais tarde (muito mais tarde), o Nintendo 64 por 199 dólares.

Quem diabos a SEGA achava que era, cobrando tanto por um console com uma biblioteca tão limitada e que sofria para impressionar em comparação com a concorrência?

Quase sem jogos

A SEGA era uma empresa com uma vasta gama de IPs, montes de equipes de desenvolvimento e uma grande variedade de parceiros terceiros no desenvolvimento de software durante a era 16 bits. O Saturn estava em desenvolvimento por dois anos, o que parece ser um tempo de sobra para que alguns títulos impressionantes já estivessem prontos.

Então aqui está o lineup cagado de lançamento: Clockwork Knight, Daytona USA (feito nas coxas, com 20 frames por segundo), Panzer Dragoon, Pebble Beach Golf Links, Virtua Fighter (uma versão não muito boa) e Worldwide Soccer.

Sem SONIC

Sonic era a SEGA. Ele era a superestrela internacional da empresa. Os merchandises do porco-espinho havima arrecadado uma boa grana e o personagem já havia entrado para a cultura pop, com desenhos animados, quadrinhos, livros e animes. Até quem não jogava sabia quem o Sonic era. Se as pessoas vissem o Sonic, elas se interessavam e compravam. Ele vendia consoles e a SEGA estava lançando um console.

Mas é claro que a SEGA escolheu não envolver o Sonic no lançamento, pois são tão arrogantes à esse ponto.

Mesmo se eles não quisessem gastar dinheiro desenvolvendo algo novo com o Sonic, eles ainda podiam ter feito alguma coisa. Eles poderiam ter portado o SegaSonic dos arcades. Eles poderiam ter feito uma versão expandida do CD, que naquela altura já estava relegado à um periférico morto. Eles podiam ter feito algo ligado àquele jogo Sonic the Fighters que logo entraria em desenvolvimento.

Pense como foi o lançamento do Nintendo 64 com o Mario 64 e como isso foi a escolha mais lógica para a Nintendo. De quanto bom senso a Nintendo precisou para capitalizar em uma franquia tão central e popular para dar suporte ao seu novo console?

Em contraste com os palhaços da SEGA, que ão só apenas lançaram seu console sem Sonic, mas acabaram por desistir completamente de fazer um jogo principal com super mascote durante toda aquela geração de consoles.

Teria sido mais fácil a SEGA ter simplesmente queimado o seu dinheiro.

Continua na semana que vem!

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